Textos e Curadoria
Coreografias Cromáticas
Mario Gioia, 2024
Com a série Sensations Collection, a artista paulistana Lu de Paula leva a pintura a jogos, relações, embates e desdobramentos que se aproximam dos limites do suporte que elegeu como predominante para sua produção plástica e, simultaneamente, se apropria do mais específico dessa linguagem tão madura dentro da história da arte.
Radicada em Florianópolis, a natureza pujante da região, apesar das constantes ameaças, tem se revelado um motor quase inesgotável para o fazer de pincéis, chassis, paletas, transparências, formas, cores, texturas e volumes tão habilmente manejado pela artista. Contudo, pode ser destacado indubitavelmente nessa fase uma fluidez, uma leveza e um espírito aberto para receber, assimilar e retraduzir pela gramática visual uma série de materialidades, pensamentos e investigações que terminam por conferir aos quadros – os resultados últimos, afinal – uma harmonia, uma busca de pausa e um silêncio que não deixam de chamar a atenção.
Vemos em, por exemplo, Blue Landscape (2024), um bom domínio do cromatismo em azul mais escuro que, por sua capacidade de deixar atento o olhar, faz com que a elaborada atmosfera construída nos leve a uma paisagem marinha, mas algo menos afetivo e mais ligado à permanência do mundo. É como que fosse possível ter instantes em suspenso, a submergir aspectos menores e de importância duvidosa que por vezes nos afetam.
To Dive 3 (2023) e Blue Ocean 2 (2022), por sua vez, mergulham na fusão entre azul e verde como que a atestar o frescor, o despojamento e uma postura permeável de momentos da vida, positivos desejados na maioria das oportunidades e que não podem ser abalroados ou apagados pelos outros menos felizes. Já Peace of Mind (2023) e Peace of Mind 2 (2023) utilizam a verticalidade para experimentar novas configurações e, sobretudo em Peace of Mind, o corrimento das tintas contribui para o ar final mais arriscado e laboratorial e, por isso, enfaticamente mais livre. Tal faceta mais aberta da artista pode ser notada também quando ela se vale de outros meios, como a colagem, quase como a ratificar e realçar as potencialidades do pictórico, como em In Nature (2021) e In Nature (2022), que emprega uma paleta mais terrosa.
E talvez Landscape Black and White (2022) angarie uma espécie de síntese da tão bem-sucedida série exibida agora. A parte baixa da tela talvez denotasse um clima mais soturno a ficar mais constante, porém, com habilidade e sem armas postiças, Lu constrói com o branco e a luz mais visível, na parte superior, uma configuração mais luminar e que coloca em xeque a intensidade do que vem abaixo. É como se a arte – por meio do trabalho persistente e cotidiano de ateliê do profissional – pudesse sempre trazer outras visadas, sopros, instantes, por mais que seja uma temerosa era.
Na análise contínua de artistas de prática intensa com o abstracionismo, sempre me lembro das considerações de Rudolf Arnheim (1904-2007), no ano de 1989. “O público geral segue desconcertado com o abstrato. ‘O que é isso?’ é a pergunta à qual devem responder com frequência os professores e os guias de museu”1, escreveu o teórico alemão radicado nos EUA. Até hoje pode persistir certa perplexidade e, de modo concomitante, o pintor contemporâneo não deixa de trazer à tona os submersos desconfortos do mundo. No entanto, mais que perspectivas de amargor, o criador visual pode construir, a partir de tais perigos, algo que possua harmonia e beleza. Algo como que um coreógrafo que extrai passos regulares de um amálgama algo caótico. Assim, nesses solos visuais, Lu de Paula, num trabalho detido e não ruidoso, vai criando uma gramática própria e que não deixa de fascinar.
Mario Gioia, março de 2024
1.ARNHEIM, Rudolf. Ensayos para rescatar el arte. Madri, Cátedra, 1992, p. 29
Mario Gioia
(São Paulo, 1974)
Curador independente e crítico de arte, é graduado pela ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo). Foi crítico convidado de 2013 a 2015 do Programa de Exposições do CCSP (Centro Cultural São Paulo) e fez, na mesma instituição, parte do grupo de críticos do Programa de Fotografia 2012. Em 2015, no CCSP, fez a curadoria de Ter Lugar para Ser, coletiva com 12 artistas sobre as relações entre arquitetura e artes visuais. Em 2011, passou a integrar o grupo de críticos do Paço das Artes, instituição na qual fez o acompanhamento crítico de Exercícios Cosmopolíticos (2023), de Gustavo Torrezan, Luz Vermelha (2015), de Fabio Flaks, Black Market (2012), de Paulo Almeida, e A Riscar (2011), de Daniela Seixas, além de Ateliê Fidalga no Paço das Artes (2010). Em 2019, iniciou o projeto Perímetros no Adelina Instituto, em SP, dedicado a artistas ainda sem mostras individuais na cidade, que contou com cinco exposições solo de artistas de BA, DF, RS e interior de SP. Em 2016, a mostra Topofilias, com sua curadoria, no Margs (Museu de Arte do Rio Grande do Sul), em Porto Alegre, foi contemplada com o 10º Prêmio Açorianos, categoria desenho. Na feira ArtLima 2017 (Peru), assinou a curadoria da seção especial CAP Brasil, intitulada Sul-Sur, e fez o texto crítico de Territórios forjados (Sketch Galería, 2016), em Bogotá (Colômbia). Em 2018, assinou a seção curatorial dedicada ao Brasil na feira Pinta (Miami, EUA) e a curadoria de Esquinas que me atravessam, de Rodrigo Sassi (CCBB-SP). Já fez a curadoria de mostras em cidades como Brasília (Decifrações, Espaço Ecco, 2014), Porto Alegre (Fulgor na Noite, Galeria Mamute, 2022), Rio de Janeiro (Histórias Naturais, Caixa Cultural, 2014) e Salvador (Fragmentos de um discurso pictórico, Roberto Alban Galeria, 2017), entre outras. É colaborador de periódicos de artes como Arte al Día.
